Vinte e Seis Anos de Saudade
23/02/2016 11:36 em Editorial

A história conta que o sertão no dia dois de agosto de 1989 amanheceu melancólico. O sabiá, o carão, a asa branca e a acauã entoaram um canto dolente numa homenagem de adeus ao cancioneiro maior do sertão.

SertãoO zabumba tocou tristonho, o triângulo respondeu sentido e a sanfona em despedida chorou a ida do seu dono. O vaqueiro, em respeito, da cabeça tirou o chapéu colocando-o sobre o peito esquerdo e soltou um aboio de saudade. O caboclo acendeu fogueira e balões subiram guiando o cavaleiro alado pelo azul infinito do céu.

Mas ele não se foi. Seu exemplo de vida e sua obra permanecem povoando a nossa existência. Basta olhar um rosto sofrido, a caminhada dos retirantes, a travessia de um riacho seco, que logo vem sua imagem. Falar em sertão é lembrar de Luiz Gonzaga. Em suas canções ele cantou tudo sobre esse encantado pedaço de terra. Falou da seca, da invernada, dos pássaros, dos padres, dos cangaceiros, das cidades, das cabrochas, da fé que move o seu povo, enfim, de tudo um pouco.  O filho de Januário é chuva que não vem, é sertanejo em busca d’água, é vaca magra soluçando saudade, esmorecida nas veredas no ocaso cinzento da estiagem desoladora que sob a égide do sol castiga uma nação chamada Nordeste. É ouvir o gemido do gado morrendo de sede, num céu sem nuvens.

Mas o filho de dona Santana é também mato molhado, inverno amanhecendo com a passarada, água corrente enchendo córregos, riachos, rios e açudes. É colheita do milho e do algodão. É a voz das cantorias, dos aboios e das novenas. É baião, forró, xote, xaxado, coco, embolada, mandacaru, repentes, choro e frevo de um povo.

Nos umbrais da cultura brasileira o repouso eterno. Seus restos mortais descasam no Parque Aza Branca. Lugar sagrado do Baião, onde os espelhos das águas do Itamaragy refletem a paz do azul celestial e o cantador aguarda pacientemente a suavidade do bafejo noturno do vento “Cantarino”.

Tu sempre estarás no Nordeste: nas noites de São João, nos foguetes, na sua animação, nas suas crenças, no fole gemendo, na fogueira, na chapada do Araripe com sua floresta e seus encantos. Enquanto houver sertão, um pé de bode, uma sala de chão batido, uma morena faceira num arrastar de alpargatas de um samba que se renova, jamais tu será esquecido.

gonzagão 100 anosViva Luiz Gonzaga!

 

 

Esse texto é do nosso amigo Jota OliverJota Oliver

nosso amigo poeta que colocou em palavras poéticas a despedida do Rei do Baião.

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